Ao iniciar um negócio, é comum que o empreendedor concentre sua atenção nas decisões mais visíveis e imediatas: desenvolvimento do produto ou serviço, definição de preços, canais de venda, marketing e geração de receita. Questões jurídicas, em regra, ficam em segundo plano, vistas como algo que pode ser resolvido mais adiante, quando a empresa estiver “mais madura”.
Nesse cenário, o registro de marca costuma ser tratado como um detalhe burocrático, opcional ou facilmente adiável. Essa percepção, embora comum, é uma das principais causas de prejuízos estratégicos e financeiros evitáveis no ambiente empresarial brasileiro, logo a escolha e a proteção da marca não são decisões acessórias, mas estruturantes.
A marca é o nome pelo qual o mercado reconhece o negócio, o elemento que concentra reputação, confiança, diferenciação e valor econômico. Quando não protegida, todo o investimento feito para construí-la fica juridicamente vulnerável. Por isso, registrar marca vale a pena não apenas como medida legal, mas como decisão estratégica de negócio, especialmente quando analisada sob o recorte orçamentário e de mitigação de riscos.
A marca como ativo central do negócio
Marca não é apenas um nome comercial ou um logotipo visualmente atraente. Juridicamente, é o sinal distintivo que identifica a origem de produtos ou serviços e os diferencia de outros no mercado e do ponto de vista econômico, é um ativo intangível que concentra percepção de valor, histórico de relacionamento com clientes e expectativa de qualidade.
Em muitos modelos de negócio, especialmente nos setores de serviços, tecnologia, educação, marketing e produtos digitais, a marca é o principal ativo da empresa. Mesmo em negócios tradicionais, o nome comercial carrega reputação, credibilidade e memória de mercado, ou seja, é por meio da marca que o consumidor reconhece, confia e escolhe.
Quando a empresa investe em marketing, branding, presença digital e comunicação, está, na prática, investindo na construção desse ativo. Contudo, sem o registro, essa construção não se converte em patrimônio juridicamente protegido. A marca passa a existir apenas de fato, e não de direito.
O erro recorrente: acreditar que o registro pode esperar
Um dos equívocos mais frequentes entre empreendedores é acreditar que o registro de marca deve ser feito apenas quando o negócio “der certo” e eu sei que essa lógica parece intuitiva: por que investir em proteção jurídica se a empresa ainda está validando o mercado?
O problema é que o risco jurídico não acompanha essa linha de raciocínio. O sistema brasileiro de marcas se baseia, em regra, no princípio da anterioridade do registro, e não do uso. Isso significa que, salvo exceções específicas, o direito sobre a marca pertence a quem registra primeiro, não a quem utiliza primeiro.
Na prática, isso cria um cenário perigoso: o empreendedor investe tempo, dinheiro e esforço na construção de uma identidade e, ao tentar registrar a marca tardiamente, descobre que um terceiro já o fez. Nesse momento, a empresa pode ser obrigada a parar de usar o próprio nome, mesmo após anos de atuação.
O custo invisível de não registrar: o rebranding forçado
Entre os impactos mais subestimados da falta de registro está o custo do rebranding forçado. Quando uma empresa perde o direito de usar sua marca, ela não perde apenas um nome. Perde reconhecimento, posicionamento, autoridade e parte da confiança construída junto ao mercado.
O rebranding envolve custos diretos, como criação de novo nome, identidade visual, domínio, materiais gráficos, embalagens, ajustes em contratos, sistemas internos e campanhas de comunicação. Soma-se a isso uma série de custos indiretos: confusão do consumidor, perda de tráfego orgânico, queda temporária nas vendas e necessidade de reinvestimento em marketing para reconstruir reputação.
Em muitos casos, o valor gasto em um rebranding emergencial supera, em múltiplas vezes, o custo de um registro de marca feito no início do negócio. Ainda assim, esse risco raramente é considerado no planejamento financeiro inicial, justamente por ser percebido como distante ou improvável.
Registro de marca como decisão orçamentária estratégica
Quando se fala em orçamento, o registro de marca costuma ser comparado a despesas operacionais. Essa comparação é inadequada. Registrar a marca não é custo operacional, mas investimento estrutural, assim como a formalização da empresa ou a elaboração de contratos essenciais.
O custo do registro é previsível, relativamente baixo e controlável quando comparado aos riscos que ele evita. Além disso, o registro protege investimentos futuros em marketing, reduz a probabilidade de litígios onerosos e aumenta a segurança jurídica do negócio.
Sob a ótica financeira, uma marca registrada é um ativo negociável. Ela pode ser licenciada, cedida, vendida, usada como garantia e valorizada em operações societárias. Investidores e parceiros estratégicos frequentemente analisam a situação da marca antes de fechar negócios. A ausência de registro pode ser interpretada como fragilidade jurídica e impactar negativamente o valuation da empresa.
Marca no mesmo patamar que contratos essenciais
Desde o início de um negócio, algumas decisões jurídicas são inegociáveis: contrato social bem estruturado, acordos entre sócios, contratos com clientes e fornecedores estratégicos. O registro de marca deve estar exatamente nesse mesmo nível de prioridade.
Assim como um contrato protege relações e expectativas, o registro protege a identidade do negócio. Sem ele, a empresa opera em um ambiente de insegurança, onde qualquer crescimento pode se transformar em risco.
Tratar a marca como tema secundário do jurídico é um erro de visão estratégica. A marca é o ponto de convergência entre jurídico, marketing, comercial e financeiro. Ela sustenta todas essas áreas simultaneamente.
Quando registrar a marca: o momento certo
A pergunta “quando registrar a marca?” costuma surgir cedo, mas muitas vezes é respondida de forma equivocada. O momento ideal é antes do lançamento oficial da marca no mercado. É nesse estágio que o risco é menor e a margem de manobra é maior.
Realizar a busca de viabilidade antes de investir em identidade visual, domínio e campanhas permite identificar conflitos, ajustar o nome se necessário e iniciar a operação com segurança jurídica. Mesmo em projetos em fase de validação, é possível adotar estratégias proporcionais, priorizando classes essenciais e reduzindo riscos.
O que não é recomendável é investir pesadamente em branding e marketing sem sequer verificar se o nome escolhido é registrável por meio de uma pesquisa minuciosa.
O que mapear antes de registrar
Antes de protocolar o pedido de registro, é fundamental realizar um mapeamento estratégico. Esse processo inclui a análise de marcas já registradas ou em processo, o grau de distintividade do nome escolhido e o risco de confusão com marcas existentes.
Também é essencial definir corretamente as classes de produtos e serviços, de acordo com a Classificação de Nice, alinhando o registro à atividade atual e às possíveis expansões do negócio. A escolha equivocada de classes pode comprometer a efetividade da proteção.
Além disso, é importante avaliar a estratégia de branding como um todo: registrar apenas o logotipo, apenas o nome ou ambos; analisar domínios e presença digital; e garantir coerência entre posicionamento de mercado e proteção jurídica.
O que evitar: erros comuns e caros
Entre os erros mais comuns estão a escolha de nomes genéricos ou excessivamente descritivos, que possuem baixa capacidade de registro e proteção, o que pode ser previsto e ajustado antes se você tiver acompanhamento juridico especializado. Outro equívoco recorrente é acreditar que o registro de domínio ou o nome empresarial substituem o registro de marca, o que não ocorre.
Também é frequente registrar a marca em apenas uma classe inadequada, deixando brechas para terceiros atuarem no mesmo segmento, ou registrar apenas a parte figurativa, sem proteger o nome. Por fim, adiar indefinidamente o registro sob o argumento de economia costuma ser a decisão mais onerosa no médio e longo prazo.
A lógica das grandes marcas: proteção além do óbvio
A forma como empresas consolidadas tratam suas marcas ajuda a compreender a dimensão estratégica desse tema. Um exemplo emblemático é o da Coca-Cola. Embora seja mundicalmente conhecida como uma empresa do setor de bebidas, a Coca-Cola historicamente não limitou a proteção da sua marca às classes diretamente relacionadas a refrigerantes. Em vez disso, estruturou uma blindagem ampla para evitar que terceiros se apropriassem do nome e da identidade visual em segmentos paralelos, gerando confusão, diluição do caráter distintivo ou aproveitamento parasitário da reputação construída.
O ponto decisivo, porém, é que essa proteção “além do óbvio” não funciona apenas como um bloqueio defensivo. Ela cria liberdade estratégica para crescimento. Quando a marca está protegida de forma consistente, a empresa ganha previsibilidade para fazer extensões de marca, licenciar produtos, realizar co-branding e fechar parcerias sem ter de renegociar direitos a cada novo movimento. Em outras palavras, a proteção antecipada reduz atrito jurídico e abre espaço para a marca operar como plataforma: não apenas identificando um produto, mas sustentando um universo de experiências e categorias.
Na prática, isso fica evidente quando a marca se expande para itens que não são bebidas, mas que conversam com lifestyle e cultura de consumo. A Coca-Cola, por exemplo, tem iniciativas e linhas licenciadas que colocam a marca em categorias como calçados e acessórios. No Brasil, há operação e presença de produtos sob a marca Coca-Cola Shoes, com tênis e outros itens, mostrando como o nome pode ser explorado em novas frentes quando existe base jurídica e estratégia de marca bem delimitadas.
Além da expansão para produtos, outro eixo relevante é o patrocínio de grandes eventos, que reforça a marca como ativo cultural e amplia sua associação com entretenimento, música e experiências. No Rock in Rio Brasil 2024, por exemplo, a Coca-Cola aparece como “refrigerante oficial” e esteve presente com ativações como o Coke Studio, além de ações de comunicação e produtos temáticos ligados ao festival. Essa presença não é apenas visibilidade: é construção de território simbólico (música, juventude, experiência ao vivo) e, ao mesmo tempo, terreno fértil para parcerias, conteúdos, promoções e licenciamento, movimentos que ficam muito mais seguros quando a marca está bem protegida e quando a empresa consegue impedir usos indevidos em categorias adjacentes.
Esse exemplo evidencia um ponto que costuma passar despercebido em negócios menores: marcas fortes não são protegidas apenas pelo que a empresa faz hoje. Elas são protegidas também pelo que podem vir a representar e pelos caminhos de expansão que podem abrir amanhã. Quando o empreendedor coloca o registro de marca no mesmo patamar de prioridade que contratos essenciais, ele não está “gastando com jurídico”; está comprando previsibilidade para crescer, reduzir risco de rebranding forçado e ampliar opções de receita e parceria no futuro.
Um roteiro de decisão para priorizar o registro de marca
Para orientar a tomada de decisão, é possível seguir um roteiro prático:
- Trate a marca como ativo estratégico desde o início, e não como elemento estético.
- Antes de investir em branding e marketing, faça uma busca de viabilidade do nome.
- Avalie o registro como investimento de proteção, comparando seu custo com os riscos de rebranding e litígios.
- Priorize o registro e busque orientação especializada para definir a melhor estratégia de registro e evitar erros que comprometam a proteção.
Proteger a marca é proteger o negócio
Escolher e proteger a marca é uma das decisões mais relevantes de um negócio, especialmente nos estágios iniciais. Não se trata apenas de cumprir uma formalidade, mas de garantir que todo o esforço de construção de valor não seja perdido por falta de proteção jurídica.
Registrar marca vale a pena porque reduz riscos, preserva investimentos, fortalece a posição da empresa no mercado e traz previsibilidade para o crescimento. Em um ambiente empresarial cada vez mais competitivo, a segurança jurídica da marca deixa de ser diferencial e passa a ser requisito básico de sobrevivência.
Priorizar o registro de marca é, em última análise, uma decisão de maturidade empresarial. É escolher construir sobre bases sólidas, protegendo hoje aquilo que sustentará o negócio amanhã.

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